Isto é ou não corrupção?

A corrupção nossa de cada dia

Embora os índices de corrupção sejam relativamente altos, é nos pequenos atos do dia a dia que a sensação de corrupção cresce

Com certeza você já ouviu alguém comentando que está escandalizado com o excesso de corrupção no Brasil. No entanto, o quanto disso é verdade? Será que vivemos em um país tão corrupto assim ou o povo, influenciado pela mídia, acaba aumentando o tamanho do problema? Um pouco de cada coisa. É verdade sim que o país tem ficado marcado por graves falhas na prevenção a corrupção. Mas também é certo afirmar que, em tempos de “comoção” por determinado escândalo, a sensação de corrupção se torna maior que o problema em si.

Uma pesquisa realizada pela ONG Transparência Brasil após as eleições municipais de 2000 é bastante significativa neste ponto. Em meio ao questionário de expectativas para o futuro, os entrevistados recebiam perguntas a respeito do desenvolvimento da corrupção.

Duas, em especial: uma sobre as esferas em que mais desenvolvem corrupção e em quais níveis essas pessoas haviam vivenciado experiências nesse sentido. O resultado apontou algo curioso. Ao mesmo tempo em que as pessoas apontam o governo federal como o nível em que mais cresce o crime, relatam que suas experiências ocorreram exclusivamente com servidores estaduais e municipais.

“É impossível saber como a opinião das pessoas é formada. Elas recebem suas informações de diversas fontes: imprensa, televisão, amigos, parentes. Portanto, é impossível saber qual a relação que essa opinião tem com a realidade. No que diz respeito a assuntos ligados a corrupção, o cidadão comum é bastante vulnerável ao noticiário”, afirma o diretor executivo da Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo.

Notadamente, é possível afirmar que essa percepção tem relação com a experiência de cada pessoa. Cada vez que vê um ato “pequeno” de corrupção – um fiscal que ganha um ´café` para não multar a obra irregular, o porteiro da boate que ganha uma ´caixinha` para liberar a entrada de um menor – a pessoa identifica ali o eterno hábito da “Lei de Gérson”, do “jeitinho” brasileiro. Por conseqüência, essa percepção acaba se transferindo para esferas maiores. Não sem antes ser devidamente multiplicada à devida proporção.

“Um ambiente que seja problemático em relação à obediência a critérios mínimos de conduta induz as pessoas a uma certa liberdade de comportamento. Por exemplo, não há aula de ética que, na escola, se contraponha ao fato da mãe do menino colocar o carro em fila dupla”, diz Abramo. “A prática social é muito induzida pelo comportamento das instituições, e não me refiro apenas ao estado. Se essas práticas são pouco rigorosas, então as pessoas terão comportamentos pouco recomendados de maneira geral.”

Mudando mentalidades

Mudar a sensação de corrupção que as pessoas têm talvez seja tão complicado quanto combater a própria. Isso porque no caso de grandes escândalos, é possível mensurar o prejuízo causado. Mas, como medir, por exemplo, a ´cervejinha` que alguém ganhou para não ver que o motorista estava sem cinto? “A grande corrupção existe tanto em países ricos como em pobres. Já a pequena corrupção é mais freqüente em países pobres. Nesse caso é preciso promover uma verdadeira mudança cultural para combater a pequena corrupção”, diz o corregedor da CGU (Controladoria Geral da União) na área econômica, Luiz Augusto Navarro.

Uma mudança cultural não é algo fácil de se implantar, naturalmente. Mas também precisa fazer parte de um combate estruturado à corrupção. Dificilmente o país conseguiria se organizar para evitar grandes escândalos se as pessoas continuarem a acreditar que ´ajudar no presentinho` do filho do comissário do avião para entrar com excesso de bagagem é algo natural.

“Isso para não dizer quando a própria população vai pedir emprego para o parente que está no setor público. Os familiares já têm a expectativa de que a pessoa vá atendê-los. Se a população vende seu voto ou vota em político que está ligado a atos de corrupção, ela acaba por perpetuar esse tipo de sistema.”, finaliza o professor do departamento de Sociologia da PUC Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Ricardo Ismãl.

http://noticias.universia.com.br/ciencia-tecnologia/noticia/2005/06/10/480321/corrupo-nossa-cada-dia.html

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: